Empresas carentes, abraços corporativos (ou um ensaio sobre a bullshitagem)

Imagine que você é um funcionário de RH ou comunicação de alguma empresa por aí. Como todas empresas do mundo vocês tem problemas, e um dia ouve falar de uma técnica inovadora para tornar os funcionários mais próximos, aumentar o senso de grupo e diminuir as brigas internas. Essa técnica é vinda da Inglaterra, já foi divulgada em veículos respeitáveis do país, e é palestrada pelo presidente da entidade que trouxe a técnica pro Brasil. Quase perfeito para a sua convenção ou para um treinamento interno, certo? E se eu te falar que essa técnica se chama “abraço corporativo”?

Essa é a premissa do documentário “O Abraço Corporativo”. Lançado em 2009, ele mostra como um ator, partindo do nada, se passou por consultor de RH e, além de aparecer em grandes veículos de comunicação, foi contratado para palestrar em diversas empresas. Essa grande pegadinha foi feita com o pensamento de ampliar a discussão sobre a imprensa que não averígua veracidade das informações e das fontes, mas também rebate no nebuloso mercado motivacional (palestras/dinâmicas/consultorias/etc). Isso me levou a pensar sobre um ponto específico: a bullshitagem.

Bullshitagem, segundo a minha definição, é uma forma de complicação e enrolação de algo que é relativamente simples.

Tudo bem que qualquer coisa que queira ser popular precisa de um nome, mas existe um grande mercado de complicação de tudo que abre brechas para a picaretagem. Gamification, live marketing, agência 360͒, 2.0, design thinking, neuromarketing,  storytelling, são alguns exemplos de como a bullshitagem vende, mas pode atrapalhar gente séria e técnicas realmente interessantes. Vamos pegar o exemplo do storytelling. Contar histórias é uma das coisas mais antigas do mundo, era um hábito muito anterior à escrita, e tivemos centenas de grandes mestres que desenvolveram diversas formas de se contar uma boa história. A comunicação sempre utilizou isso, mas de repente ela tornou-se a palavra da moda. Assim, automaticamente, contar histórias virou o “storytelling”, um Eldorado da comunicação. Não quero discutir o storytelling, mesmo porque eu acredito que, bem aplicado, é uma ferramenta básica para qualquer comunicador ou empresa. Mas a partir daí o termo acabou caindo nas graças do mercado e acabou que pode ter diversos significados, diversas aplicações, dependendo do que o “especialista” defenda.

A bullshitagem transforma coisas claras em vagas, abrindo diversas portas para a picaretagem, sua melhor amiga. Como tudo que é novo é meio obscuro, muita gente sabe um pouco de alguma coisa e acaba se aproveitando de uma onda de fama para surfar. Pense em quantas palestras inúteis de social media, uma das últimas queridinhas do mercado, você já viu? Quantos ~especialistas~ em social media surgiram por entender um software de monitoramento ao invés de entender o comportamento das pessoas nas redes sociais? Não demora e existirão termos para especialistas em computação vestível, internet of things, e por ai vai. Isso não é uma exclusividade das empresas, o mercado acadêmico sofre com isso há anos. O academiquês, que talvez seja um primo mais velho da bullshitagem, também acaba afastando um conteúdo potencialmente interessante da maioria das pessoas.

E como fugir da bullshitagem?

Não acredito muito no princípio de que algo bom é algo que você consiga explicar em 1 minuto. As coisas mais novas que eu ouvi muitas vezes não foram fáceis de entender. E algumas das coisas mais legais que eu já fiz foram as mais complicadas de explicar.

Por isso, uma maneira de fugir da bullshitagem é pedir para explicarem. É dificil sustentar uma bullshitagem por minutos de conversa.

O ponto é que as pessoas e o mundo estão mudando tão rápido que é muito difícil de acompanhar. As pessoas mudam, os clientes mudam, os funcionários mudam, a economia então nem se fala. Por isso as empresas ficam carentes. E como qualquer pessoa carente, a chance de procurar ajuda e cair na opção que parece mais atrativa, que oferece soluções mágicas, é grande. Portanto quanto menos bullshitagem, quanto menos hype, mais honestos seremos. E quanto mais honestidade, menos abraços corporativos serão necessários.