Parece que estou trabalhando, mas estou lendo isso aqui

Somos todos diferentes, certo? Cada pessoa funciona de um jeito: uns preferem a manhã que a noite, outros precisam de música para se concentrar. Tem aqueles que só conseguem fazer uma coisa por vez e outros que fazem várias coisas ao mesmo tempo (se quiser saber mais sobre isso é só dar uma lida aqui, ou aqui, ou pensar por que o Good.Co existe).

Pensando nisso, é interessante analisar os empregos. Um emprego é basicamente alguém te contratando para fazer determinadas funções. Essas funções podem ser delimitadas por tempo, como um segurança ou porteiro, ou por metas de trabalho, ou seja, você deve fazer algo em troca do que lhe é pago. A questão é que a grande maioria dos empregos têm horário fixo, então muitas vezes não importa se você terminar sua função em 2h, terá que cumprir as 8h padrão (ou mais). É ai que nos perguntamos, por que?

O objetivo aqui não é discutir a necessidade de um local de trabalho, do trabalho em grupo e por aí vai. Isso é uma outra discussão, com outros pontos positivos e negativos (quem não se lembra do caso do Yahoo). Mas quem disse que, em plenos 2015, temos que trabalhar 8h?

PS: se quiser saber a história de quem deduziu que o ser humano deveria trabalhar 8h/dia, recomendo esse artigo

Essa questão surgiu com a leitura desse ótimo artigo da Fast Company, que basicamente fala um pouco sobre um experimento da Universidade de Washington que mostrou o que todos nós sabemos: não importa se eu e você trabalhamos a mesma quantidade de horas e com a mesma efetividade, quem chega antes ganha: terá uma percepção muito melhor dos companheiros, dos chefes, mais chance de ser promovido, e por ai vai. Isso me lembra as discussões intermináveis que tinha nas minhas reuniões de feedback em agência, do porquê eu tinha que chegar as 10h se chegando as 11h eu conseguia fazer tudo que eu precisava. Mas e se alguém precisar de você? Inventaram um negócio chamado tecnologia, podemos conversar, nos ver, até compartilhar telas! Incrível, não?

Empresas e até o homem mais poderoso do mundo tentam incentivar o horário flexível, mas as pessoas não estão preparadas para isso.

A questão não é bem assim. Empresas e até o homem mais poderoso do mundo tentam incentivar o horário flexível, mas as pessoas não estão preparadas para isso. Existe o jogo do poder, as personas, tudo aquilo que envolve o ambiente de trabalho. Nesse jogo, mostrar dedicação é importante. E na maioria das empresas isso significa chegar mais cedo. Uma das frases que mais assustam desse artigo é “So in the eyes of a boss, a late-arriving worker may be no different from a bad worker”. Quantas vezes aquele que chega mais tarde fica ouvindo piadinhas? Quantas vezes você foi embora mais cedo e gritaram “êêê meio período!”. E quantas vezes essas pessoas que falavam isso trabalharam menos, ou fizeram menos suas tarefas do que você?

Da ideia de “não importa se eu e você trabalhamos a mesma quantidade de horas e com a mesma efetividade, quem chega antes ganha”, partimos para o “não importa se fazemos o mesmo serviço, quem fica mais tempo no trabalho ganha” e para o “não importa se batemos as mesmas metas, quem parece trabalhar mais ganha”.

Parece uma planilha mas é o Facebook disfarçado.

Parecer trabalhar. Essa é a grande questão.

Mostrar-se compenetrado, interessado, dedicado, é crucial para uma vida profissional. Mas, como as pessoas são diferentes, têm diferentes ritmos, elas fazem seus trabalhos de diferentes formas e diferentes tempos. Só que todos devem parecer estar focados, interessados e dedicados, ficando no trabalho suas 8 horas diárias. Obviamente nem todo mundo se dá bem com isso. Se eu acabo o trabalho em 4 horas mas sou obrigado a ficar aqui 8 horas, o que vou fazer? Pedir mais trabalho? Tá maluco?

Os hackers do trabalho inventam milhares de formas de parecer estar trabalhando, para que cumpram aquele horário pelo qual são pagos para fazer nada. Fazer as coisas de forma mais lenta, ficar no Facebook, 9gag, almoços intermináveis, pausas gigantescas, sonecas no banheiro. Se você não acredita, existem até guias e sites especializados (1 e 2) pra isso (use com moderação). Lembro de um cara que, quando o fizeram trabalhar no feriado, adiantou o trabalho em um dia normal (pois falava que demorava 6 horas pra fazer algo que fazia em 2, então sobrava tempo produtivo) e programou o e-mail para ser enviado no final do feriado, fazendo todos acharem que ele trabalhou que nem louco durante o dia de folga.

Como Fingir Estar Ocupado no Trabalho Sem Realmente Trabalhar
Se você está sendo pago para fazer alguma coisa, você deve fazê-la, e fazê-la bem feita. Mas é sempre assim tão simples…pt.wikihow.com

Antes que você, empresário, pense “por isso que bloqueei o Facebook da minha empresa e obrigo todo mundo a bater ponto!”, já te adiando que não sabe de nada, inocente. Zueira never ends, e não existe brecha física ou virtual que não possa ser burlada. O “parecer trabalhar” cria uma relação nada saudável entre funcionários e empresas. A empresa perde dinheiro, o funcionário perde tempo, todos pedem produtividade e qualidade de vida.

Mas como liberar horários flexíveis, aceitar as pessoas como elas são, sem prejudicar o dia a dia e o trabalho em grupo? Essa é a parte tensa. Primeiro, você tem que ter um belo planejamento de tarefas. Se eu tenho bem detalhado sobre o que preciso fazer, não vou ter que ficar esperando meu chefe pra falar comigo. E consigo me planejar pra fazer em X horas, seja de onde for. Segundo, defina bem metas. Alguns vão pensar “pô, mas sempre tem coisa pra fazer, então nunca poderia ficar ocioso!”. Se fosse assim trabalharíamos 24h por dia. Com metas você define o que quer de cada funcionário, e ele sabe o que tem que fazer, onde chegar. Terceiro, você vai precisar de reuniões, então precisará inevitavelmente de horários em comum. E para aqueles (como eu) que acham que um espaço de trabalho onde as pessoas convivam e trabalhem juntos é essencial, você pode definir horários e dias em comum pra todos estarem presentes.

Aqui na Santo Caos a gente combina que as tardes são horários em comum.

Com isso, eu, que começo a trabalhar tarde, e o Daniel, que prefere ir embora mais cedo, conseguimos fazer nossos horários diferentes mas ainda assim conviver e trabalhar juntos. Sem querer parecer trabalhar mais que o outro, simplesmente fazendo com responsabilidade e metas.

Por fim, talvez a palavra-chave pro fim desse mal que é o “parecer trabalhar” seja responsabilidade. Sim, nem todos têm. Sim, você pode perder alguns prazos nesse processo. Pode parecer errado, mas se confiar nas pessoas elas vão retribuir. Com o tempo, poderíamos mudar o mercado, e assim o perfil dos funcionários, tornando-os responsáveis por default. E acredite, talvez as empresas que não conseguirem acompanhar isso também não conseguirão acompanhar as próximas gerações.